Terapia Ocupacional

Ser o Centro das Atenções pela Pior das Razões

17 Dezembro, 2020 Sem Comentários

“Cansado passo a vida a pensar nas palavras que te vou dizer

didático eu não posso falhar, corro o risco de me repetir

Sou um dado, sentimento aprovado, estas linhas quero descrever

Ansiedade mata-me

O orgulho protege-me

Lembro o dia em que voltei, a ser o centro das atenções

Pela piores razões”

 

Poderia ser só a letra de uma das músicas dos Tara Perdida… ou pode ser a letra da vida de um, dos muitos dos jovens, com sentir de vida perdida, que chegam até nós.

Todos encerramos em nós letras de vida que vemos, lemos e (re)escrevemos na tentativa de fazer soar a nossa melodia no compasso que queremos dançar. Mas nem sempre o ritmo acontece… a rima aparece… a vida surge.

Muitos são os jovens que chegam à Terapia Ocupacional com receio desta dança; não só de não saber como acompanhar o ritmo certo, mas como olhar os pares que dançam à sua volta, como perceber a sua vez de iniciar o compasso, dar ritmo a um corpo adormecido ou apenas sentir…deixar sentir a melodia.

A adolescência encerra em si a exigência, que se pensa adquirida, de conseguir seguir o ritmo da vida que nos rodeia. Mas não é fácil, não é linear, nem podemos pedir à partida que todos os adolescentes entrem nesta dança livres de receios, de bloqueios e ansiedade, que os imobilizam e ensurdecem o seu dançar.

Quando a norma desaparece, instala-se a dúvida, apreensão e muitas vezes o conflito com os pais; os que deram os primeiros acordes, aqueles a quem é reivindicado que conheçam cada contorno, cada nota musical e aqueles que no seu dia-a-dia não veem os seus filhos dançar, sentindo-os o centro das atenções, pela pior das razões.

Precisamos de dar espaço para que jovens e pais possam ouvir a sua melodia interior, sem ruídos de mágoa. É necessário um local, que muitas vezes se quer insonoro para que no silêncio da atenção plena de cada respirar possam surgir as primeiras notas, os primeiros acordes, as primeiras melodias.

Cada família encerra em si uma orquestra, é necessário dar espaço para ouvir cada instrumento, surgir cada solo, sentir o momento de virar a partitura ou pousar a batuta.

 

– Luísa Meireles