Pedopsiquiatria

Rivalidade Fraterna

17 Dezembro, 2020 Janeiro 6th, 2021 Sem Comentários

O crescimento da fratria surge através de todas as apresentações possíveis, com meninas, meninos, adoções, idades calculadas, gravidezes inesperadas, gemelares… em união com os sonhos dos pais que nunca tiveram tempo de acabar de escrever o guião.

… Até conseguimos imaginar o nosso bebé, encontrar nele traços familiares, temperamentos, feitios e pormenores que mais ninguém vê…

… O que não conseguimos é imaginar como será o encontro entre dois filhos. Que alargam a nova geração e introduzem uma nova dimensão na família. Tudo se passava até então entre os pais e o filho. Agora existe uma nova relação que os pais observam fora de si, a relação fraterna.

A relação fraterna edifica-se numa relação primária (bebé-cuidador) sólida e ao mesmo tempo numa relação triangular, sendo hoje sabido que o bebé não se vincula apenas à mãe, mas ao pai, irmãos e a todas as figuras afetivamente importantes.

Os pilares desta relação por vezes ficam incompletos, por várias razões.

Quando falha a relação primária – ou quando existe uma deterioração e perda de qualidade desta – ou quando os filhos vêm ocupar o lugar de um sonho, de um medo ou de um fantasma parental, nunca podendo escolher quais as peças de lego que querem colocar na sua torre.

A responsabilidade parental é de facto central na qualidade da relação fraterna, seja através do assegurar da disponibilidade e qualidade da relação dual (pais-filhos) – os chamados momentos de filho-único – distribuição dos dividendos do amor pleno a cada filho, seja pela responsabilidade de conhecer o melhor possível cada criança nas suas necessidades, vulnerabilidades, forças e qualidades.

Mas a qualidade da relação fraterna não se encerra nos pais. Há que conhecer a criança, saber como está a ler a história, quais as suas ideias ou fantasias, que a possam deixar insegura ou reivindicativa, chata, irritante, que acorda a irmã quando está a dormir, que nos arranca o braço no supermercado e que se descontrola e chora como se lhe tivessem feito tanto mal.

A chegada de um irmão pode ser vivida transitoriamente como perda, até que a criança descubra que este parceiro de brincadeiras, invasor de espaço e ladrão de brinquedos e alguém de quem nunca poderá prescindir para continuar a ser Feliz.